sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ciência e Mistério




Extraído da obra "Criteriologia - Uma Teoria do Conhecimento"
de Frei Pacífico de Bellevaux.


     Ciência e mistério parecem antagônicos e, entretanto, são duas noções inseparadamente vinculadas, e quem reconhece a Deus não sente a mínima dificuldade em aceitar os mistérios decorrentes da idéia de Deus.



     O que é mistério? Uma coisa impossível? Uma contradição? Uma afirmação contrária à razão? O que se aceita sem razão? Nada disto.


     O que é então? É uma verdade. Mas há duas ordens de verdades profundamente distintas e igualmente certas. A verdade percebida em sua luz direta, e a verdade conhecida numa luz reflexa, a verdade fenomenal e a verdade substancial, ou ainda a verdade dos princípios evidentes, e a verdade das conclusões legitimamente deduzidas. Ora, o mistério, em sua noção genérica, é verdade desta segunda ordem.

     A primeira é verdade de superfície. O mistério é verdade de profundidade, verdade escondida, mas manifestada pelo raciocínio ou por testemunho irrecusável. Permanece invisível e como que velada. Ora, uma verdade pode ser escondida na natureza, no homem e em Deus, por isso há mistérios da criação, mistérios do homem e mistério de Deus. 

     Para começar, neste mundo material desde o átomo até os astros gigantescos reina uma força que é como a síntese da ciência dos corpos. 

     Os astros, através dos espaços, se reconhecem e atraem segundo leis bem definidas. Os átomos, da mesma maneira, se atraem e combinam em proporções determinadas. E até hoje nada desmentiu e tudo confirma essas leis da matéria que conquistaram nas ciências a glória de uma certeza invencível. Mas, como podem esses corpos insensíveis exercer uns sobre os outros esta reciprocidade de ação e reação que os conserva num equilíbrio comum, duma harmonia constante? 

     Qual é a força que atrai um sol para outro sol, um átomo para outro átomo? É a força da atração que resplandece em todo o mundo material, mas que em si mesma permanece mistério insondável. O vocábulo a designa, não a mostra; o vocábulo a constata, é a fórmula de uma força que se conhece pelos efeitos, mas que, para a ciência, permanece no abismo do mistério. 

     Todos unanimemente admitem como dogma a atração universal. Entretanto, até hoje ninguém tentou explicar sua íntima natureza. Para todos, ela é evidente e misteriosa, invisível e palpável, obscura e radiante. Primeira constatação da aliança do mistério com a ciência. 

     Vamos agora um pouco mais alto, aqui começa o mundo dos viventes. Nesse mundo, uma nova força desenvolve e multiplica sem fim o espetáculo da vida: e em toda a parte essa força faz germinar as plantas, desabrochar as flores, amadurecer os frutos. Força mágica, maravilhosa, mas cheia de enigmas. Como, de uma semente, que se corrompe na terra, pode surgir um gérmen, numa atividade silenciosa, quase divina que da morte produz a vida? 

     Contrariamente à lei da atração, um caule se eleva de baixo para cima, orientado para o sol. Bem em cima do caule, uma flor encantadora vem coroar a planta oferecendo-nos sua beleza e seu aroma. 

     Em baixo da flor, já murcha, forma-se nova semente que será nosso alimento, depois de ter sido nosso encanto e que servirá para transmitir a vida a novas plantas. Tudo isso é maravilha da vegetação. Mas o que é vegetação? 

     Como ninguém sabe definir a atração que preside o mundo dos seres inertes, ninguém tampouco pode definir a força vital que lenta, mas seguramente, conduz os seres vivos ao completo desenvolvimento. 

     A força vegetativa enche a ciência da Biologia, pelas maravilhas que realiza, e confunde o espírito humano pelos seus mistérios. 

     Mas, subindo mais alto, encontramos a vida em suas mais complicadas manifestações. Não é apenas a vida que sobe de baixo para cima ou do centro para a periferia, mas a vida que se move, que se desloca, que se transforma de um lugar para outro. Não é a vida que apenas vegeta, mas vida que sente. 

     Nela atua a força motora, a força sensitiva. Mas onde está esta força que se manifesta em todo o organismo e não se vê em parte alguma? E que atividades nos movimentos de um simples beija-flor! 

     Movimentos que encantam os olhos, cativam o espírito pela sua graça, pela sua agilidade e elegância. E quando esse ser minúsculo e encantador torna-se um cadáver, o anatomista encontra nele alavancas, pontos de apoio, uma obra-prima de mecânica. 

     Mas a força que movia este organismo tão delicado permanece mistério que se furta a todas as pesquisas de todas as ciências. 

     E assim, nesses três mundos que nos precedem e que dominamos, o mistério em todas as partes levanta-se em face da ciência como a dizer: tu não ultrapassarás minhas fronteiras. E vamos rejeitar este tríplice mundo por que encerra mistérios? Vamos repudiar as ciências da natureza por que não possuem a última palavra? 

     Mas isso tudo é pouco ou nada, se subirmos até a região mais elevada do mundo material, à região do homem que não é apenas um corpo que gravita, uma planta que vegeta, um animal que sente, ele é uma inteligência que vê, uma razão que raciocina, uma vontade que ama, uma liberdade que escolhe, uma alma, um princípio vital que em todo o organismo revela a sua presença. 

     É o pequeno mundo que se manifesta aos olhos do fisiologista e do psicólogo, com todas suas luzes e também com seus misteriosos abismos. No centro deste maravilhoso mundo existe um ponto de partida, o de chegada de todos os movimentos fisiológicos e psíquicos: é o nosso Eu, nossa personalidade, que diz: meu corpo, minha sensação, meu prazer, minha dor, minha liberdade, o que em nós constitui o que há de mais claro como fenômeno, e de mais misterioso como natureza. 

     E que dizer da atividade mental, dos pensamentos que atingem o mundo supra-sensível? Que dizer da palavra humana, a brilhante mensageira do pensamento? Como pode a alma por intermédio de uma vibração, fazer vibrar milhares de outras almas? 

     Como pode um leve sopro escapado dos lábios humanos produzir a comunhão das inteligências na verdade e, ao mesmo tempo, a comunhão dos corações num mesmo amor? Como pode a palavra, que é de ordem material, ser o veículo das idéias que são de ordem espiritual? Para dizer todos os mistérios que a ciência encontra em sua marcha, seria preciso percorrer todo o campo da criação. E diante desta constatação que se impõe ao nosso espírito, como a luz do sol aos olhos, perguntamos mais uma vez, como certos cientistas podem ainda afastar da ciência a idéia de Deus, por que encerra também mistérios? 

     Os mundos inferiores aparecem em sua invencível realidade, constatamos seus fenômenos com as respectivas leis que os governam, daí concluímos que devem existir causas, das quais percebemos algumas propriedades por via de dedução, mas sua natureza íntima não é mais objeto de intuição direta, e nós nos conformamos com este conhecimento parcial e confessamos o mistério inseparável de toda ciência. 

     O homem pensa e admira tantos mistérios: um animal que se move; uma planta que vegeta; uma flor que desabrocha; uma semente que germina; uma voz que fala; uma gota que cai; um sopro que passa; um raio que refulge; um átomo que gravita... 

     Deus, infinitamente superior a todo o mundo criado não pode ser conhecido na sua vida íntima, na sua Essência. 

     Aceitando o elemento misterioso nas ciências todas, não conspiramos contra o espírito humano. Apenas constatamos fatos e, diz o adágio, "contra os fatos não há argumentos". 

     Os seres todos, grandes e pequenos, inertes ou vivos são objeto imediato das ciências. 

     A ciência, diz Huxley, não possui meio nenhum para enunciar uma opinião sobre a origem da vida, só pode apresentar conjecturas sem nenhum caráter científico. Du Bois-Reymond coloca a origem da vida entre os sete enigmas que desafiam a ciência experimental. 

     A luz mental que projeta seus raios no mundo das ciências é, ao mesmo tempo, radiante e misteriosa como a luz material que ilumina a natureza. 

     Nada mais claro e nada mais obscuro do que a luz, sempre o mistério no meio do esplendor. Dizemos vulgarmente: claro como a luz do dia. Entretanto, até hoje a Física vacila diante dos fenômenos luminosos, não os sabendo definir com precisão, multiplicando as hipóteses, tropeçando sempre com o mistério. 

     Mas, se a luz que ilumina os corpos conserva o mistério profundo de suas origens, de sua íntima constituição, que dizer das fontes da natureza da luz imaterial que inunda com seus fulgores o mundo das inteligências? Como se realiza no espírito a primeira irradiação da verdade? 

     O sol é a evidência dos corpos, como a luz dos espíritos é a evidência das inteligências. Mas se procuramos as fontes, a última palavra da luz mental, seu modo de penetração e de irradiação nas almas, encontramos barreira intransponível que nos intima: aqui não se passa. Assim o Criador fez o mistério na origem de toda ciência e de toda a luz, na origem de todo ser e de toda a vida. 

     Tudo o que é primitivo, tudo o que é gerador permanece impenetrável aos olhos dos mortais, e quem quer ingressar nos domínios do saber, deve começar pela constatação do incógnito. 

     O espírito humano, na sua marcha através dos campos da ciência, não só começa, mas termina sua brilhante e fecunda exploração pelo mistério. 

     O homem que muito meditou, muito estudou é, pela ciência, reconduzido ao seu ponto de partida: o mistério. O mistério que ele encontrou impenetrável no princípio, ele o encontra ainda no termo, apenas - ampliado pelas conquistas e multiplicado pelas descobertas. 

     Que carreira de gigante, nas claridades da ciência, alargaram diante dele as regiões do mistério e os horizontes do desconhecido! Como ao turista que escala as encostas da montanha, cujos cimos resplandecem diante de seus olhos, à medida que sobe, alargam-se os horizontes, os abismos lhe parecem mais profundos e insondáveis. 

     Apesar da claridade que o ilumina, uma sombra misteriosa, como uma cortina obscura deixa perceber apenas as superfícies sem possibilidade de penetrar o fundo de coisa alguma. 

     Assim, o gênio que atinge as culminâncias da ciência: o que ele descobre lhe mostra, numa luz melancólica, quão pouco, quão pequeno e restrito é o que conhece, quando o compara com as incomensuráveis regiões do impenetrável. Antes do estudo, tinha o instinto do mistério, que soberanamente reina no fundo de todas as coisas, depois do estudo, tem a demonstração peremptória do mistério, que é o ponto final de todas as ciências humanas. Razão tinha Pascal ao afirmar: "O último passo da razão consiste em reconhecer que uma infinitude de coisas ultrapassam o alcance da nossa razão." "Tudo o que sei é nada, comparado ao que não sei", dizia Pasteur. 

     O mistério, nas ciências, poderia dizer, como Deus no Universo: eu sou a origem e sou o eterno, eu sou o princípio e o fim - eu sou o alfa e o ômega. 

     A falsa ciência o nega; a ciência autêntica o reconhece e adora. Deixamos passar a ciência impertinente que proclama ridiculamente a abolição do mistério e, pelo fato, pretende iluminar a Deus Criador e regedor do universo. O que permanece no princípio e no fim de toda ciência é o mistério: uma série de verdades seguramente constatadas, mas impenetráveis em sua íntima natureza. Esta ordem de verdades, que jamais elucidaremos totalmente é uma das condições ao progresso científico, é a constante provação para novos estudos, novas pesquisas e novas descobertas. 

     O mistério físico provoca e ativa a ciência da natureza; o mistério fisiológico provoca e ativa a ciência da vida. Os mistérios psicológicos e religiosos provocam e ativam o conhecimento do homem e de Deus. 

     É sempre o ignorado, o desconhecido que impele o gênio humano nos caminhos das grandes descobertas. Ninguém estuda o que já conhece. O mistério em face da natural curiosidade estimula a inteligência a dissipar as sombras que ocultam a verdade. Para acelerar o progresso científico é preciso recuar as fronteiras do conhecido, dilatar o domínio do possível, acreditar que além do visto, além dos fenômenos superficiais existem realidades escondidas. 

     Para acelerar o progresso científico é necessária a ambição de descobrir novos caminhos, novas perspectivas sobre um mundo adivinhado, mas que teima em guardar seus segredos, e que nunca sairá inteiramente de suas sombras. 

     Para acelerar a marcha científica, é necessário o estimulante da curiosidade que provoca o desejo que, semelhante a uma mola de aço, impele todas as faculdades mentais para a conquista de verdades desconhecidas. 

     O que provoca precisamente a curiosidade e o desejo de saber é sempre o mistério. 

     Mas por que insistir tanto na constatação dos mistérios que em todos os domínios das Ciências Naturais oferecem barreiras insuperáveis ao avanço de gerações e de gênios? Não será isto arrombar portas abertas? Querer demonstrar a própria evidência? 

     É um preconceito a afirmação de que o mistério cristão é incompatível com o espírito científico. E esta afirmação pueril paralisa, muitas vezes, a marcha a Jesus Cristo de nobres inteligências e de grandes corações. 

     Os crentes não cedem a ninguém o primeiro lugar no amor à ciência, mas eles sabem, e não esquecem que a ciência é indissoluvelmente vinculada ao mistério, que é ao mesmo tempo a origem e o fim e o grande propulsor de todas as ciências. 

     Depois de Deus e da virtude, nada mais nobre do que a ciência, mas a ciência deve ser modesta; ela vive de hipóteses que se sucedem umas às outras como as ondas na praia. 

     Alguém já disse que metade da humanidade zomba da outra metade. Seria mais exato dizer que metade dos sábios está ocupada em combater, corrigir, completar e derrubar os sistemas científicos penosamente edificados pela outra metade. 

     Assim, pois, respeito e modéstia, lealdade e estudo em face de todos os mistérios naturais e religiosos que o espírito limitado dos homens encontra em sua marcha científica. 

     Com esses dois elementos: lealdade e aplicação assídua em face de todos os problemas naturais, filosóficos e religiosos, a ciência progredirá incessantemente, deixando às vezes cair à direita ou à esquerda, as teorias, as hipóteses reconhecidamente errôneas, e os sonhos idealistas, e levará através dos tempos o tesouro precioso dos fatos, das leis, das certezas, sempre em harmonia com a razão e a fé cristã.

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