sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Problema do Negro

  

Extraído da obra "Invasão Vertical dos Bárbaros" de Mário Ferreira dos Santos.


     A primeira vista pode parecer que tratar do problema do negro aqui é tentar colocar um tema totalmente deslocado, em lugar impróprio. Mas veremos que tal não se dá, e que o tema do negro é de capital importância para o exame desta época que a caracterizamos como invasão vertical de bárbaros.

     A África, sobretudo a negra, esteve desde um long​o passado mergulhada no desconhecido para os europeus, e seus povos de cor alimentaram os campos de cativeiro, não só de europeus, que ali dominavam, como, sobretudo, dos próprios africanos, pois a escravidão negra não se pode atribuir aos europeus, porém muito mais aos próprios africanos, visto que esse instituto é mais de origem bárbara que de origem culta.


   Por outro lado, com exceção do Egito, com certeza, a África sempre esteve imersa no barbarismo, desde que a conhecemos. E a cultura egípcia não é propriamente de origem africana; ao contrário, é de origem européia, como é matéria pacífica, hoje, entre os estudiosos de antropologia e arqueologia. Desse modo, a África, propriamente dita, ou seja, a raça negra, não construiu nenhuma alta cultura (1).

  Ora, o importante, ao tratar deste tema, é jamais desbordar-se de modo a cair na demagogia moderna, que aproveita as condições dos africanos e de seus descendentes para amplas explorações contra adversários políticos, acusando estes das condições de miséria em que deixaram os povos da África, e também os seus descendentes em outros países, sobretudo americanos. Ora, os que assim falam são filhos ou netos, ou descendentes de antigos escravagistas, que se afirmam amigos do negro (como chamaremos daqui em diante para simplificar) e que se apresentam agora como seus aliados e amigos sinceros, em cuja sinceridade há africanos que realmente acreditam, e alguns, mais astuciosos, simulam acreditar.

   A verdade, porém, é que da mesma massa em que são feitos esses novos arautos da liberdade negra (2) eram feitos os seus antigos exploradores. Se a raça negra, por seus representantes, quiser procurar quais foram os seus amigos, não os encontrará nunca do lado dos grupos políticos de todos os tempos, porque os de hoje falam de amizade, de liberdade, de autodeterminação ou coisas parecidas, essas também eram as mesmas palavras dos antigos "amigos" que traziam, porém, às costas, algemas para prender os seus filhos, se não as escondiam nas costas de aliados negros, mais escravizadores que os escravocratas europeus.
Portanto, a verdade para o negro é a seguinte: os amigos brancos verdadeiros nunca foram os que fazem política na Europa e da parte dos negros estavam os seus maiores carrascos, negros escravizadores de negros, negros capazes de caçar negros para vendê-los aos brancos, negros que caçavam negros para escravizá-los, e não os vendiam aos brancos, mas transformavam-nos em seus próprios escravos. Em suma, negros contra negros, negros escravizados ontem, escravizadores amanhã; negros escravos que só sonhavam em poder caçar negros para escravizar, negros que desejavam obter a liberdade e açulavam os seus irmãos a fazê-lo com a intenção de conseguir vendê-los, depois, como escravos, ou deles se apossar para seu proveito. Em suma, tanta miséria, tanta, que a repetição dos aspectos é a mesma, com variantes tão sórdidas, umas como as outras.

    E assim sempre foi a África, sempre, e hoje também é assim. Hoje, também, há os que prometem libertar, mas querem escravizar.

     Os negros não têm amigos:

    1. entre os próprios negros;
    2. entre os brancos;
   3. os únicos amigos que os negros conheceram foram negros ou brancos animados por um ideal religioso, e só por um ideal religioso, e nada mais. Mesmo entre esses, houve os que falharam, houve hipócritas, houve traidores.
   Ora, quem conhece a África sabe que a incorporação do negro na cultura e na civilização branca é um problema desafiador. São milênios de vida selvagem, de espírito tribal, de sectarismo, de exclusivismo, de lutas cruenta entre povos, grande parte ainda antropófagos e de uma ferocidade animal, populações inteiras primárias, de baixo nível cultural e técnico, que sempre viram naquele que tem uma fisionomia e um corpo parecido consigo, não o seu semelhante, e muito menos o seu próximo, mas, ao contrário, o seu inimigo atual ou potencial, alguém que deseja explorá-lo, escravizá-lo, dominá-lo. Repetimos: quem viajou à África, quem estudou os povos africanos, sobretudo os negros (pois, aqui, queremos tratar apenas dos negros) sabe que é assim. Não estamos exagerando nada, estamos sóbrios, sobriíssimos, apenas mostrando o que é geral, o que é universal lá, sem salientar as formas excessivas que ultrapassam até as imagens num pesadelo de tigre. Não queremos nos referir a exceções, apenas à regra geral.

  Os africanos conscientes, aqueles que já cursaram universidades europeias, que já receberam os ensinamentos religiosos (sobretudo esses) sentem estímulos (mais vagos ou mais sinceros) de serem diferentes. Notem bem, sentem vagos e talvez sinceros estímulos de serem diferentes. Não estamos ainda absolvendo-os, não estamos elogiando-os, senão dentro de certos limites; queremos crer em sua sinceridade, mas em termos, em limites, com dúvidas bem salientadas, e exigindo provas muito robustas e constantes de que essa sinceridade seja real. (3)

    Os negros sabem disso. Eles não têm memória, como nós que também formamos um povo sem memória, mas sabem muito bem que sempre apareceram amigos, muitos negros e brancos chamaram-se, intitularam-se amigos. Mas os amigos de verdade, aqueles que lutaram por eles, foram aqueles missionários que penetraram pelas selvas, que arrostaram todos os perigos imaginários para levar-lhes um pouco de bem-estar, de instrução, de conhecimentos úteis, que os ergueram da miséria em que viviam, que lhes deram um pouco de apoio e de humanidade, mas que, para não malograrem em seus bons intentos, para não se encontrarem em face de tremendos malogros,viram-se forçados a adaptarem-se à esquemática africana, a tratar os negros com energia, mostrarem-se como superiores, porque, na África, digam o que quiserem os pseudoamigos dos africanos, só se respeita a autoridade que esteja investida de muita força, só se respeita aquele que é capaz de castigar. É preciso remover Himalaias para conseguir despertar num africano o sentido do amor e da disciplina, o respeito ao semelhante e ao superior, e nessa esquemática não se acresça a ameaça da violência e do castigo. Pode urrar, querendo contrariar-nos, quem o quiser, mas essa é a verdade dos fatos, e chamamos para isso o testemunho de todos os homens que lutaram realmente pelo bem dos negros, inclusive Schweitzer, para citar um contemporâneo de maior renome mundial, e o mesmo aconteceu com os jesuítas, que ainda hoje mantêm suas missões, e obras grandiosas na África. Lutaram sempre no bom sentido missionário, quiseram fundar igrejas, ou seja, assembleias de Deus, juntar homens de uma tribo ou de várias, numa visão humana e cristã da vida, que não mais se olhassem apenas como entes entre entes, mas como irmãos ante irmãos, e eles, todas as vezes que adocicaram ou abrandaram as suas atitudes, e não foram severos para com eles, exigindo-lhes com energia e disciplina, não conseguiram nada, nada, nada. Nem eles nem ninguém.

    A verdade é que na África, tudo quanto se pretenda fazer com algumas palavras brandas, com expressões de afetividade, em que não se esconda ou se dê de leve a impressão que o transviado receberá a chicotada, nada se consegue de positivo.

    O negro, na sua quase totalidade, não entende ainda outra voz. Schweitzer viu-se obrigado a ser enérgico. Se não chegou a usar o chicote, teve necessidade de fazer crer que era capaz de fazê-lo. Porque se ele sorrisse demais, passasse a mão brandamente pelas costas, fosse benevolente, toda a sua obra estaria perdida. Era preciso saber "morder e assoprar", como entre nós, aqui, para a maioria da população. É preciso saber pular de oito para oitenta, como se diz na nossa gíria, que é expressiva e prudente. E na verdade é assim que procedem nossos homens públicos, e assim têm de proceder porque benevolência demais leva ao abuso; severidade demais leva à apatia, ou ao terror, à fuga. Viver os extremos. Eis a grande tragédia do povo africano; eis também, em grau menor, a nossa tragédia. A grande desgraça de um povo está precisamente quando se vê nessa contingência.

    Porque viver os extremos é o sinal da barbárie. Os bárbaros é que vivem os extremos. Os cultos e os civilizados vivem entre os extremos, sem tentar atingi-los, tudo fazendo para nunca atingi-los, para manter-se no termo médio, nada em excesso, e num grau superior, no termo médio bom e justo, como o dos pitagóricos. Ora, isso tem sido impossível de atingir de pronto, aqui, e muito menos na Africa. Não adianta se argumentar com exceções, pois o que nos interessa, em primeiro lugar, é a regra geral. A exceção é apenas a esperança de que há uma saída, pois onde podem surgir exceções, essas podem, pelo menos, multiplicar-se.

    E precisamente nesta verdade da vida prática podemos nos fundar para fazer alguma coisa de melhor, e também nela devem fundar-se os que verdadeiramente querem o bem dos negros.
   Há entre os negros exceções, pois que se multipliquem. Se apenas pensarmos na regra geral, ou se nela não pensarmos, cairemos em dois erros de graves consequências:

   1. se pensarmos nessa regra, prosseguir-se-á fazendo o que sempre se fez;
   2. se não se pensar nela, não cuidaremos das exceções, e nunca se fará nada em benefício do negro.

   Não se pense, nem de leve, que seja possível uma redenção coletiva imediata da raça africana. Quem crê nisso é ingênuo ou malicioso. Quem pregue isso, como uma verdade, engana com boas ou más intenções, mas engana.

    A elevação da Africa será a mais tremenda tarefa do fim do século XX e do século vindouro. Muito sangue derramarão os africanos, muita faca africana atravessará o corpo daqueles que parecem seus semelhantes, muito punhal africano se afundará em costas de pele preta, muita corda suspenderá do pescoço seres parecidos com seus algozes, muito crânio africano servirá para banquete de africanos, e muita carne africana alimentará corpos africanos. Muita miséria humana, muita, muita desgraça humana, muita promessa não cumprida, muita maldade, muita infâmia, muita demagogia, muita falsa amizade, muita mentira, himalaias e himalaias de mentira, himalaias e himalaias de traição o mundo verá, o mundo sofrerá, até estarrecer-se, esgotado do próprio pavor.

   Mas, também, muita vitória, a princípio claudicante, muito africano aprenderá a ver no homem de cor preta algo que, além de parecido, é semelhante, que, além de semelhante, é próximo, que, além de próximo, é amigo, que, além de amigo, é irmão. Muitos estenderão também as mãos aos outros, muitos deixarão de ver no homem de cor preta o explorável e sentirão por ele amor, e sentirão, afinal, amor pelo bem de quem ama, compreenderão a caridade, saberão o que é, na verdade, caridade; libertar-se-ão dos milênios e milênios de opressão e da esquemática da polaridade senhor-e-escravo, que é uma polaridade que a África viveu sempre. Pensarão em libertar, mas para libertar sabem que não é apenas isentar-se de umas algemas e preparar-se para adquirir outras. A libertação exigirá a vitória sobre a ignorância, as paixões e os preconceitos. Muita coisa grandiosa também haverá, e talvez a exceção torne-se a regra geral, e então a luz que dominará a África não será mais o sol causticante e cruel, mas a luz do amor acrisolado, da vontade livre e purificada, do entendimento esclarecido e forte. E então Cristo, o maior símbolo humano de todos os tempos, o exemplo dessas três capacidades máximas a que atinge a mente humana e a que pode atingir qualquer ser inteligente, reinará nos corações africanos, e os braços brancos e negros se encontrarão, não mais para destruir, mas para o abraço fraternal que ainda não veio.

   E não veio, porque a culpa não é dos negros apenas, mas nossa sobretudo, de nós, os brancos, os cultos e os civilizados. Se as condições deles não foram favoráveis, as nossas intenções não foram honestas, quase nunca.

    Nós não vimos a África também, de outro modo, senão como este:

  1. uma terra de gente bárbara e cruel, estúpida e infeliz, de homens lobos do próprio homem, de homens tigres do próprio homem, hienas, chacais de cor preta e de feições parecidas às nossas, mais animais que homens, talvez uma raça que tenha provindo de espécies inferiores, cujo parentesco conosco é longínquo.
   2. portanto, que devemos fazer deles senão escravos, já que não compreendem o trabalho livre, já que se negam disciplinar-se para viver cultamente, já que se obstinam em conservar os costumes bárbaros e vivê-los com intensidade sempre a mesma, imutavelmente. Ademais, a escravidão, que Ihes oferecemos, sempre será melhor que a oferecida por seus sobas. O escravo, tratado por nós, recebe melhor passadio e assistência do que recebe de seus senhores de cor preta. Nisto há uma profunda verdade que os jovens românticos abolicionistas escamotearam e quase todos os defensores dos negros têm esquecido.

   Ora, tais maneiras esquemáticas de considerar os negros é uma decorrência fiel da maneira dos negros considerarem-se a si mesmos. Trataram-nos como os negros trataram uns aos outros. Houve uma equivalência de atitudes, e apenas uma divergência quanto aos beneficiários de tudo isso.

    Estamos exagerando? Todos os africanistas ilustres, todos os que foram à África e viram-na com olhos observadores e justos sabem que não exageramos. Podem afirmar que falamos num tom muito alto e veemente, mas neste momento em que verdadeira e tremenda nova exploração do negro se faz à custa do negro, é preciso veemência, e dizer as coisas que devem ser ditas, embora não agradem aos brancos que ocultam novas algemas, e aos negros cúmplices de brancos, que se escondem atrás das costas pretas, e aos negros que desejam pô-las em outros negros para seu único benefício. Esses não gostarão do que dizemos, esses dirão que mentimos, esses dirão que exageramos. Não os que sabem como as coisas se dão, não os que não desejam que as mesmas coisas se repitam, não os que se demoraram a estudar a realidade africana que é de estarrecer.

   Quando se examinam tais fatos é mister, como agora, tomar um pouco de fôlego, porque tudo isso saiu de um jato, num misto de indignação e de ira.

   É de ira, porque sabemos que é árduo, que é tremendamente difícil conseguir o inverso, fazer o contrário de tudo isso, de que se dispõe de parcos elementos, e africanos raros para um trabalho decente e realmente proveitoso. Para fazer demagogia, para agitar, para pôr armas nas mãos dos negros para que matem negros e brancos indiscriminados, para açular ódios, para fazer crescer preconceitos, para assombrar consciências, para enegrecer de trevas as mentes, há milhares e milhares prontos para esse trabalho, dispostos até a morrer para levar avante o mesmo que se fez sempre na África.

    Mas o trabalho de missioneiros, indo aos africanos como verdadeiros amigos, por amor do Deus de bondade, para ajudá-los realmente a lutar contra as dificuldades, e realmente semear o bem, é ainda diminuto, restrito. E é natural que seja assim. Sabemos que entre as coisas mais belas do homem está, sem dúvida, a heroicidade, sobretudo quando ela é sábia e santa, mas sabemos, também, que é ela rara.

     Não se improvisam desses heróis, e é difícil buscá-los entre os brancos.

   O que é encontradiço nos brancos são os falsos amigos, aqueles que falam em sua integração na sociedade moderna e nada fazem de realmente útil para arrancar os negros de uma esquemática que ainda os domina. É verdade que o negro americano, o afro-americano, descendente dos que nasceram na África, já apresenta caracteres novos, e surgem nele figuras exemplares e nobres, capazes de muito fazer em benefício dos irmãos de raça, que ainda vivem na África. Mas há ainda muito que fazer aqui, até que os afro-americanos possam levar aos africanos um auxílio poderoso. Muitos negros daqui, que foram à África, cheios de boa vontade, voltaram decepcionados, e muitos desesperados. Falai com eles, e eles vos dirão a verdade. Talvez muitos prefiram calar, magoados com a sua decepção. Mas outros dirão o que viram, o que sentiram, e o estado de alma que vivem hoje. É difícil, e quase impossível, despertar-lhes outra vez a esperança. Lá na África também há muitos africanos cultos, os quais foram movidos de entusiasmo e da fé de que seriam capazes de fazer alguma coisa de grande a favor de outros negros, e hoje, desolados, ou se deixam cair na apatia, ou no desespero, quando, o que é pior, não retornam 21 barbárie e tratam barbaramente os seus irmãos.

   Não vamos prolongar mais esta parte. O que queremos salientar é que a maneira errada como entendemos o negro e o que fazemos aqui em relação a ele nada aproveita à sua culturalização, nem conserva a nossa. Ao contrário, lutamos pela barbarização deles e pela nossa. Não adianta que tomemos da sua música e a popularizemos entre nós, julgando que, com isso, faremos uma melhor aproximação; não adianta que facilitemos o seu ingresso em nossa sociedade, se não lhes damos os meios para evitar os malogros. Que adianta, como se têm feito, dizer que ao negro são dadas as mesmas oportunidades, se isso é apenas teórico e não prático?

   Que nos adianta dizer que os negros devem elevar-se até os mais altos postos, se grande parte deles nem sequer pensa em votar em negro, mas só em branco? Que adianta lutar por eles, quando os auxiliamos a que creiam que é mais importante abrir escolas de samba do que abrir escolas para ensinar os filhos? Que adianta lutar por eles, quando os açulamos para que, nos batuques, nas congadas, nas escolas de samba, nos terreiros, no carnaval, na aguardente, malgastem os seus mais poderosos esforços?

   Há atrás dessa mentirosa benevolência do branco uma intenção terrível. Se ela não é de todos, é dos que movem nos bastidores as nossas ações. Na verdade, enquanto houver apenas samba e mais samba, escolas de samba e carnaval à vontade, o negro continuará sendo o negro que sempre foi. Enquanto na África se afirmar que queremos libertá-lo, atirando-o na vida econômica para a qual não tem esquemas, para concorrer nos mercados sem mecanismo de defesa, substitui-se a escravidão política pela econômica, sob o nome de autodeterminação dos povos. Muitas das nações livres da África encontram-se hoje em situação pior do que estavam quando eram colônias. E para ocultar a verdade do malogro, diz-se que é natural que seja assim. A liberdade cobra muito caro no início, mas, depois, ela paga com bons juros (à brasileira?). Mas isso é mentira, porque a derrocada que se observa na África não é preço da liberdade, é preço da incapacidade de ser livre. É preciso preparar os africanos para a liberdade, e isso ninguém fez e muito menos os próprios africanos. É mister que não mintamos mais. O problema africano desafia a mente dos homens honestos e afastados da política, que realmente possuem boas intenções. É preciso que em todo o mundo se reúnam os que pretendem cristãmente o bem dos negros para que, trabalhem, para que estudem e promovam providências que realmente possam beneficiá-los. Não cremos em ações organizadas por Estados políticos. Esses sempre servirão a interesses inconfessáveis.

    Não cremos em nações amigas que estendem os braços a outras nações. Os Estados foram sempre egoístas, ontem, hoje e o serão amanhã. Acreditamos, sim, em homens, em grupos de homens, que abrigam em suas intenções o que é honesto, mas que não basta crer em suas intenções, nem confiar nelas, que ajuntem também o estudo sério sobre o problema, e que se reúnam a alguns negros que têm alma não de escravo, nem de escravagista, mas alma de homens livres e cristãos, e trabalhemos com eles para fazer alguma coisa em benefício deles, mas cujo caminho será em despertar, acima de tudo, neles, a convicção que há de ser por eles e através deles, libertando-se de tudo quanto há neles de cruel, de bárbaro, que irão lutar pelo bem dos seus semelhantes.

    Do contrário deixai-os continuar batucando, gingando os corpos em suas escolas de samba, fazendo trejeitos frenéticos e histéricos nas ruas das cidades para gáudio dos brancos. Deixai-os, porque então eles escolheram o seu destino e são responsáveis do que fazem, porque sabem muito bem o que fazem ...


(1)O autor elucidará mais adiante sua concepção do tribalismo africano. Embora ela pareça generalizante, de certo modo ela encontra confirmações históricas nas atrocidades que ocorreram posteriormente naquele continente, notadamente nas lutas sangrentas entre as tribos. Também é importante destacar alguns debates recentes relativos à questão do negro, realizados sobretudo no Brasil. Como assinala Demétrio Magnoli, geógrafo da USP, em sua obra Uma Gota de Sangue, que traça um histórico do problema racial e levantou acirradas polêmicas, a própria concepção de "negro" é uma invenção do colonizador branco, posto que os habitantes da África se vêem cada qual como pertencente a uma tribo e a uma etnia, e nunca como membros de uma unidade étnica maior abstrata passível de ser denominada de ."negros".
(2) E aqui a massa de que falamos figurativamente refere-se à mesma alma, ou à mesma maneira de sentir e de julgar na intimidade. (N. A.)
(3) A visão do autor, por mais polêmica que seja, e a despeito das eventuais críticas que se lhe façam, parece aspirar mais a um realismo radical, sem quaisquer eufemismos ou atenuações românticas, do que ser propriamente preconceituosa.

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